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General Cranes Review
1996, Unknown Publication

Surgidos no final da década de 80 em Portsmouth, Inglaterra, os Cranes são seguramente daquelas bandas para as quais as mais belas palavras existentes em todos os dicionários do mundo são insuficientes para descreverem toda a sua majéstica beleza. Permitam-me que seja tendencioso, subjectivo, apaixonado e delirante. Os Cranes encerram nas suas elegantes e sofisticadas composições, iguais doses de melancolia e de esperança. Canções românticas, inundadas de indizíveis encantos, onde a luz habita os mesmos espaços da escuridão pois uma não consegue viver sem a outra. Canções simples onde não nos é difícil encontrar momentos de rara beleza e intensidade, subtilmente evocados pelo chamamento de uma musa com voz de criança.

Feliz a hora em que os irmãos Jim e Alison Shaw (a voz feminina mais sensual que escutei até hoje, e asseguro-vos que não foram poucas...) resolveram traduzir em música toda a melancolia interiorizada nos seus espíritos sombrios, um pouco à custa de uma infância passada em pseudo-delinquência, depois da separação dos pais. Longe vão os dias em que os irmão Shaw cultivavam à volta dos seus primeiros temas, uma dependência demasiado aproximada a nomes como Joy Division ou Nick Cave (a própria Alison confessou que «quando eu via os Birthday Party [antiga banda de Cave], costumava passar-me completamente, todo aquele impacto circundante do som, era interminável, a pura intensidade daquilo tudo...»). Nessa altura, a banda passou brevemente pelo inferno, situação que poucos por certo imaginariam: para além de ensaiarem numa cave de escassas pequenas janelas onde o constante barulho de um potente gerador ajuda definitivamente para um ambiente claustrofóbico tipo submarino, foram forçados a vender quase todo o equipamento, para combater a fome apenas contrariada por umas quantas batatas. Apesar de toda esta complicada situação gerada, da escuridão sobressaía uma voz confidente e clara, quase infantil, distante do estilo etéreo para a qual haveria de convergir. O primeiro material dos Cranes, ainda duo, foi registado numa cassete-album intitulada Fuse, gravada num estúdio de 8 pistas, propriedade da própria banda, onde gelava até à morte enquanto criavam uma série de gravações brutalmente perturbantes, cheias de guitarras selvagens mas com um poderoso sentido de melodia. Este primeiro registo cometeu a proeza de chamar a atenção de uma editora local que não demorou a apostar nos Cranes. Assim surgia pouco depois Self Non Self, para todos os efeitos, o trabalho estreia desta formação, que permitiu o reconhecimento a nível nacional e cujos corolários foram alcançados quando John Peel os convidou para gravarem nas famosas Peel Sessions e quando fizeram a capa do conhecido jornal musical britânico Melody Maker. Esta p rimeira fase de ascenção terminou com a assinatura de um contrato com a independente Dedicated, editora que curiosamente os Cranes mantèm até hoje. Por esta altura, os Cranes continuavam com o núcleo duro apenas constituido pelo dúo de irmãos embora nos espectáculos ao vivo fossem auxiliados por outros guitarristas. Antes de surgir o EP Inescapable, entraram para a formação da banda Mark Francombe (estudante de arte e cinema) e Matt Cope, antigo técnico de guitarras da banda. Os Cranes haveriam de editar mais alguns EP's para logo a seguir realizarem uma tournée com os helvéticos Young Gods. Em 1990 nascia o segundo album da banda, o brilhante Wings Of Joy, uma obra que assinalava a descida da banda para um mundo obscuro de desespero e tormento, tal a energia negativa que escorria das guitarras estridentes, pianos graves e vozes em queda livre, sangrando melancolia em cada suspiro. De forma a promoverem este disco, participaram numa extensa tour mundial com os Cure, tocando regularmente para audiências na ordem das 70.000 pessoas, chegando inclusivamente a fazer uma jam-session no final dos concertos com os Cure (Robert Smith nunca escondeu o seu fascínio pelos Cranes). Para não contrariar a ordem natural das coisas - album - tour - album - tour, lançaram em 1993 Forever, aquela que é a obra-prima mais marcante da história desta formação, incluindo peças enigmáticas pontuadas por breves visões de paraísos perdidos. Aos temas mais simples, bem na tradição do grupo, juntam-se neste registo outros na veia mais industrial/neo-clássica que só por mero acaso não nos fariam lembrar Young Gods ou mesmo os Laibach. Forever marcou a extração do primeiro single da banda, através do belíssimo Jewel, single este que entrou directamente para o TOP 30 inglês e que chegou a conhecer uma remistura por parte de Robert Smith. Também Clear, outro tema do album, foi remisturado, desta vez por intermédio de Ivo-Watts Russell (patrão da conhecida 4AD) e J. G. Thirwell. Durante a tounée europeia que se seguiu, gerou-se alguma hi steria (nada injustificada...) em torno dos Cranes chegando ao ponto dos fâs belgas quase causarem motins à entrada dos espectáculos com lotação esgotada. No início de 1994, o grupo entrava mais uma vez em estúdio: Jim tornava-se cada vez mais um entusiasta interessado em bandas sonóras clássicas de filmes enquanto Alison consumia Les Mouches (As Moscas) de Jean-Paul Sartre, o que conjugado acabou por traduzir-se no projecto intitulado La Tragédie D'Orestes Et Électre onde Alison declamava passagens do livro citado enquanto Jim construia uma banda sonóra de composições neo-clássicas. Este disco esteve inicialmente previsto como 2ª parte de um duplo album mas devido a problemas de direitos de propriedade de Sartre, essa peça essencial de um lirismo latente, baseada na mitologia grega, só viria a ser editada em 1996. Em 1994 no entanto, foi editada a primeira parte do suposto duplo album, Loved, disco mais «normalizado» mas que constituiu uma assinalável progressão além de incluir mais umas quantas pérolas musicais adornadas com a voz doce de Alison.

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